sábado, 4 de janeiro de 2014

Aos pares (um mais um faz dois?)



Desde pequeninos, aprendemos a ser par! Um par de sapatos, um par de meias, um par de brincos, barbie e ken, tartaruga e lebre, sofá e almofada, um par de cadarços, mamãe e papai, vovó e vovô, tio e tia, primo e prima, sol e suco, chuva e café... E por aí vai... Não estou dizendo que alguns pares não são essenciais, apenas constatando que somos constantemente bombardeados pela ideia de que se não for par, é sozinho! Crescemos atormentados pela possibilidade de enfrentar a malvada solidão.
Almoçar sozinho, sair sozinho, beber sozinho, ir ao cinema sozinho, viajar sozinho são alguns pesadelos de todos os dias...
A solidão é tratada a pontapés em todos os filmes, em todas as novelas e em todas as conversas que vemos e travamos.
Ninguém basta a si próprio, “ninguém é feliz sozinho”, essa é a mensagem contínua que recebemos e a busca por um par ou companhias para o programa mais banal possível se torna imprescindível.
Faz sentido?
Não, não faz. Isso nos leva a depender sempre de outras pessoas para sermos felizes. Se você não “tem” alguém, você é um solitário... “pobre coitado, está sempre sozinho”... Quando eu era pequena, ouvia uma história que dizia o seguinte: “ Deus fez os Anjos com duas asas pois são completos, já os humanos, certa vez perguntaram a Deus porque não tinham duas asas igualmente, então Deus respondeu: - Dei a vocês homens, uma asa para cada um, ao encontrarem a outra (em um par) poderão ser completos voar como os Anjos”.. Creio eu que essa historinha remete-nos a velha questão da “alma gêmea”. Ao meu ver essa história não engloba de forma nenhuma o conceito de liberdade... Fernando Pessoa disse certa vez: “A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo”. Marisa Monte completa esse raciocínio: “Quem foi que disse que é impossível ser feliz sozinho? Vivo tranquilo, a liberdade é quem me faz carinho”... Ou seja, se você está só, tem toda a liberdade de escolher estar com alguém (ou não). O medo de estar só pode ser justificado por Schoppenhauer, quando disse que as pessoas não suportam a solidão porque não suportam a si mesmas. As mulheres são as criaturas mais atormentadas por esta convenção... Basta olhar ao redor, as mulheres conquistaram seu espaço, são inúmeras, maravilhosas, cheias de ideias incríveis, criativas, independentes, amorosas, inteligentes, interessantes. No entanto, apesar de todas as conquistas femininas, muitas delas ainda encontram-se esmagadas sob uma espécie de maldição: a obrigação de encontrar um (par)ceiro, de “procriar”, de seguir a tradição (?)... ninguém precisa viver sozinho, não digo aqui que estas maravilhosas mulheres deverão viver sozinhas para afirmarem sua evolução social, de forma alguma. Apenas acho nocivo e desnecessário essa cobrança absurda e dolorosa, essa corrida contra o tempo, como se encontrar um parceiro e ter filhos fosse o único caminho (possível e) bem-sucedido. Muitas mulheres, independentes e bem sucedidas, tomadas por uma carência imposta e atormentadas pela ideia de que não ter um homem ao seu lado seria uma espécie de fracasso social, procuram de modo errôneo e acabam concordando em se relacionar com homens que as tratam de forma descuidada e muitas vezes desrespeitosa. Esse comportamento é perigoso e pode trazer à tona na fantasia masculina, a mulher carente. Ou seja, aquela para a qual qualquer migalha oferecida é um presente enorme que provoca sorrisos, gratidão e, consequentemente, faz renascer no homem a sensação prazerosa de ser útil. Pois não descarta-se aqui a questão da independência feminina, questão que assombra os homens que ainda se sentem responsáveis e provedores do sustento e é extremamente atrativa para os oportunistas, os “homens-filhos”, dependentes financeiramente e emocionalmente (tá assim deles ó).  Outras, no entanto, estão buscando uma forma mais justa de se relacionar. São mulheres que tem conseguido ser fiéis a si mesmas. São mulheres que desejam um relacionamento afetivo saudável. Tem prioridades na lista (e que lista) parceria, igualdade financeira, honestidade, fidelidade, respeito e cumplicidade. Indo contra o pensamento um tanto machista de Oscar Wilde quando diz que “As mulheres existem para que as amemos, e não para que as compreendamos” (?) Buscam parceiros maduros e prontos que assumam, a seu lado, a responsabilidade de ter um relacionamento (tá em falta no mercado). E existem as mulheres que simplesmente não estão em busca (pasme!). Acredito que ser livre é compreender a própria essência, a própria alma, e você realmente não precisa de ninguém para fazer isso. Felicidade não depende de ninguém, nem o amor, é dádiva solitária, o amor que sinto por alguém é meu e somente meu e será eterno até quando eu me permitir, estando o outro em minha vida ou não. Leon Tolstoi disse que o amor começa quando uma pessoa se sente só e termina quando uma pessoa deseja estar só. E é por aí... Não há nada de aterrorizante em estar bem e feliz sozinha! Digo isso com prioridade. A vida está bela assim, como está (isso não quer dizer que não serei feliz ao lado de alguém), mas no momento estou transbordando de mim mesma! Um relacionamento amoroso ao qual nos entregamos deve nos tornar maior do que somos, e não o inverso. Ter que abrir mão de seu próprio ser é um preço inaceitável.



Nenhum comentário:

Postar um comentário